O dicionário descreve propósito como intenção (de fazer algo); projeto, desígnio; aquilo que se busca alcançar; objetivo, finalidade, intuito; aquilo a que alguém se propôs ou por que se decidiu; decisão, determinação, resolução.
Uns definem propósito como sentido da vida. Outros diferem sentido de propósito, pontuando que sentido é uma narrativa autobiográfica, uma perspectiva cognitiva, quando olhamos para nossa vida e entendemos que ela vale a pena. Enquanto propósito é o sentido em operação, quando vivemos aquilo que nos dá sentido, o porquê a nossa vida vale a pena. O porquê.
Os sábios da antiguidade já buscavam entender o sentido da vida, o destino de cada homem. A humanidade segue evoluindo, e a pergunta ecoando na timeline da vida interior de cada um.
São inúmeras definições, em maioria concordando que propósito é a essência do homem em plena atuação tocando o mundo, sendo relevante no outro. O outro é também ponto comum em muitos pensadores do propósito, sendo que o propósito só faz sentido se transcende de um ser humano tocando o outro, deixando um legado. Esse “tocar o mundo” vai muito além de desempenho ou sucesso. Podemos ser excelentes numa tarefa, atingirmos um estado incrível de flow, e ainda assim não vivermos a experiência incrível do propósito, se todo o nosso esforço for apenas para nós mesmos. Falar de propósito é falar de relacionamento, de sermos presentes no mundo, conectados com o outro, alteridade na linguagem dos sábios antigos.
E de onde vem o propósito do homem? Da origem do homem, Deus – essa força criativa, o divino. Propósito não pode ser criado ou copiado, é necessário descobri-lo. Nascemos com ele, está tão impregnado na nossa essência quanto a cor dos nossos olhos. E, por falar em olhos, para essa descoberta é necessário alinharmos nossa visão.
Certa vez, o sábio mestre Jesus Cristo disse: “Seus olhos são como uma lâmpada que ilumina todo o corpo. Quando os olhos são bons – funcionam bem, todo o corpo se enche de luz. Mas, quando os olhos são maus, o corpo se enche de escuridão. E, se a luz que há em vocês é, na verdade, escuridão, como é profunda essa escuridão!” (Mt 6.22-23 NVT). O processo de descoberta do propósito requer visão. Ele sempre esteve lá, desde da nossa concepção, porém é comum que ao longo da vida a nossa percepção dele perca o foco, embace, tornar-se miope. E míopes não apenas em relação a ele, mas em como vemos a nós mesmos.
Descobrir o propósito é uma jornada de (re)visão, trazer à consciência quem somos em essência, nossa identidade, o que nos move e como nos movemos no mundo. Essa trilha requer olhos que funcionem bem, desfazer as miopias a respeito de quem somos, das forças e talentos que nos são inatos e em como já tocamos o mundo ao longo da nossa história de vida.
Essa é uma jornada de liberdade. E o que precisamos para vivenciá-la? Há dentro de cada um de nós todas as ferramentas necessárias para o cumprimento do nosso propósito pessoal de vida. Nossa identidade, personalidade, talentos, forças e virtudes, a nossa forma essencial de perceber o mundo, tudo foi pensado e planejado para o propósito que nos cabe. São como peças de um quebra-cabeças que, quando devidamente agrupadas, revelam nosso propósito e dão forma a uma peça de um quebra-cabeças maior que dá propósito ao mundo de alguém. Todos temos propósito.
Gosto de pensar pela perspectiva da cosmovisão judaico-cristã, em que o propósito é uma faceta da grandiosidade de Deus – imagem e semelhança, que cada homem carrega em si para revelar o divino ao mundo. Uma porção única e exclusiva. Eis aqui outro ponto importante, e presente nos estudos sobre propósito – tanto antigos quanto atuais, o caráter espiritual, transcendental do homem.
Não somos apenas corpos por aí. Nem tão pouco almas vagueantes. Os gregos dividiam o ser em três partes: soma – o corpo, psique – mente humana, e nous – a vida espiritual, ou seja, somos seres espirituais que têm uma alma e habitamos um corpo. Já a cosmovisão cristã divide-se entre: dicotomia e tricotomia, em que os que creem na dicotomia consideram o homem com uma parte física e outra transcendental – corpo e alma; já os que creem na tricotomia percebem o homem semelhantemente aos gregos. Por fim, trago Platão e “sua biga”. A biga é uma pequena carroça puxada por dois cavalos. Para o filósofo, essa ilustrava que um dos cavalos representaria os instintos e o outro, as emoções. Tanto um quanto o outro seriam puxados pelas rédeas, que seriam os pensamentos – a mente da razão. Logo, no topo da personalidade, estariam os pensamentos. O corpo como sendo a própria biga, é o transporte, é o que está se movendo. O ser que está lá puxando seria o próprio Ser, o próprio espírito ou a própria constituição do ser. Todas essas partes juntas formam o homem.
Há outras visões orientais sobre a constituição do homem, e lá essa “parte” que transcende o mundo natural que vemos segue presente. Daqui por diante, trataremos como o ser espiritual. Destacamos esse ponto, pois ele é fundamental na trilha de descoberta do propósito. Essa consciência que de somos espirituais na integralidade do ser complementa o processo de autoconhecimento.
Bem, abordamos o aspecto divino que nos presenteia o propósito, mas como ele se manifesta? Na relação.
Para falarmos de relacionamento, é imprescindível falar de nós mesmos, antes de falarmos do outro. Um olhar ajustado, uma visão com olhos que funcionem bem para quem somos de fato – nossa identidade, irá nos conduzir para o propósito com clareza. Quando temos consciência da nossa identidade – personalidade, talentos e virtudes, livre de distorções – traumas, culpas, medos, etc, nos aproximamos do sentido da nossa vida.
Essa é uma etapa incrível, de protagonismo e coragem, a jornada do herói que cada ser humano vive ao caminhar em direção ao seu propósito. Olhar a nossa vida desde o começo, resgatando memórias marcantes em que nos sentimos “ocupando nosso lugar no universo”, atuando na vida com tamanha destreza e fluidez que nos remete à sensação de que o tempo poderia parar ali. Todos temos momentos assim, porém, muitas vezes abafados por lembranças dolorosas que nossa mentalidade de autopreservação teima em manter na superfície da memória. Eis aqui um ponto onde um tipo de miopia costuma morar.
Crenças de não valor, demérito, incapacidade e outras tantas são construídas na primeira infância e, caso não sejam desmascaradas, tendem a ser reforçadas ao longo da vida. Essa “visão” distorcida sobre nós mesmos faz com que nossos olhos não funcionem bem… Como resolver isso? Revisitando nossa timeline, de forma consciente e intencional, uma busca de perguntas e respostas a fim de descobrir a verdade a respeito de nós mesmos.
O propósito se manifesta nos relacionamentos. Já mencionamos isso antes. Da mesma forma as crenças a respeito de nós mesmos, dos outros e do mundo também são construídas nos relacionamentos. Para vivermos a plenitude de uma vida com sentido e propósito é necessário desatar todos esses nós, e estar consciente das forças e virtudes que nos tornam quem somos. Quem somos, para um propósito.
Conscientes de que existimos para um propósito, de posse de nós mesmos – através de uma identidade restaurada, olhamos para o mundo, olhamos para o outro.
Na mesma timeline da nossa história há registros de momentos em que nos sentimos parte da vida de alguém, plenos de significado simplesmente por estarmos sendo quem somos e colocando em movimento toda a nossa essência – dons e talentos. Cada registro desses carrega uma pista que aponta para o propósito.
Inúmeras vezes confunde-se o conceito de propósito ao de vocação – chamado. Associado a profissão, ou nossa capacidade de produzir algo, algumas vezes com uma visão de missão de vida, a vocação é uma pista importante de propósito. Embora, apareça muito mais associada ao “como” do que ao “porquê” de cada ser humano. Uma ferramenta para cumprirmos nosso destino. Eis aqui outra miopia em relação ao propósito. Quando percebemos nossa vocação, profissão como sendo nosso propósito, não poucas vezes eliminamos o caráter atemporal do propósito, já que a exercemos apenas por um tempo na nossa vida. O propósito está presente e atuante desde a nossa infância, ainda que não sejamos conscientes dele. Assim, em “idade produtiva” para o mercado de trabalho ou não, seguimos tendo propósito. Ele não se aposenta, ou acaba, ele amadurece com cada um de nós. Quanto mais cedo nos tornamos conscientes do nosso destino de forma geral, mais assertivos seremos nas nossas escolhas e decisões, sempre pensando de forma alinhada com nosso propósito. Assim, todo o esforço que empenhamos tende a deixar um legado. Propósito fala de legado.
Diante de todas essas considerações, construímos a nossa definição de propósito:
“A minha essência por inteiro atendendo à vocação para deixar um legado no outro, no mundo.”

